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A cantora triste, falando sobre o fim da juventude. Tudo que lembra de sua relação é do começo promissor e do apito final. O resto foi tragado pela raiva e decepção.

Daughter, Youth, para quem quiser saber do que estou falando.

Ela poderia ter experimentado algo bonito e tranquilo. Envelhecer com seu amante, criar manias e rugas,e, eventualmente, se apegar a elas.

Os dois passariam por problemas. Por exemplo, escolher o nome do primeiro filho. Ficariam num impasse tectônico, enquanto a barriga seguia virando uma azeitona e depois um tonel.

Até que, com o nascimento, fossem definitivamente obrigados a resolver o conflito. Ainda no hospital, ela prepararia uma lista com vinte nomes, e o cara teria de fazer a escolha final.

A única imposição dele, pra participar do jogo, seria proibir qualquer combinação sinistra de inglês com português. Sei lá, algo como Westerley Rilderson. Sem ofensas leitor, caso se chame assim, mas, se realmente tem esse nome, você se fodeu.

Então chega um dia e o futuro desaparece. Pela vagarosa desconstrução do afeto, ou por um motivo tão abrupto quanto a violação do leito nupcial.

Direitos são perdidos. O direito de conversar sobre como foi o dia, o direito de planejar uma viagem ou de escolher o nome do filho.

Em vez do futuro, alguém prefere o ralo.

A cantora triste, falando sobre o fim da juventude. Ela canta por nós.

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Roberto Salvatore