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Lá fora, o arfar das folhas. Aqui dentro do quarto, na TV, passa Into the Wild, dublado.

“Eu não entendo nada do mar. Mas sei que quando estou perto dele, me sinto vivo”.

Essa foi uma frase da dublagem de Into the Wild. Nesta cena, o garoto está viajando com aquele casal de hippies, você sabe. E a mulher fica triste da vida porque o garoto lhe faz lembrar seu filho, de quem não tem notícias há dois anos.

Bem, o protagonista está na praia, conversando com o hippie de bigode, e vendo a mulher andando pela areia, sendo beijada pela espuma das ondas. Já disse que a versão era dublada. O bigode fala assim, na versão em português: “nós hippies não estamos bem.”

Mas não caí nessa.

Lembro-me exatamente dessa frase, e possivelmente é a única frase que lembro da versão em inglês. É assim: “nem tudo vai bem no front hippie.”

Percebe a diferença? Um abismo.

Em português ou em inglês, Into the Wild é um filme que faz a diferença. Você acaba de vê-lo e fica pensando e pensando. É um filme livro, ao qual você poderá deixar na cabeceira, e voltar diversas vezes – sempre haverá algo novo.

Ver pela segunda vez te deixa claro alguns detalhes: há o Alasca e há o road movie. No Alasca, o menino, Alexander Supertramp, fica o tempo inteiro cavoucando um furo a mais no cinto de couro.

O filme passa, e ele, morando no Magic Bus, vai fazendo furos no cinto, porque o desgraçado não para de emagrecer. O que o leva à morte por inanição, que nem gosto de lembrar.

Então você entende só no final que o cinto não é qualquer cinto. O último parceira da aventura de Supertramp, um militar aposentado, artesão e gravador de couro, o ensinou a fazer aquele cinto.

Então o menino escreve toda a história de sua viagem no couro. E morre de cinto.

Outros detalhes: o tempo todo passam aviões, deixando rastros no céu. Um rastro da sociedade, que ele aos poucos se livra.

“Sociedade!”, e o menino grita de novo “sociedade!”, com aquele homem louco que o emprega nas colheitadeiras de trigo. O homem é louco o suficiente para beijar a garçonete que se aproxima, sem avisá-la. E depois é preso mijando ao ar livre, pelo FBI.

Depois o garoto lhe escreve uma carta. “Por que um homem livre como você tem que ficar preso?”

Por não pagar impostos à sociedade.

Sociedade, sua raça de loucos, espero que você não se sinta sozinha sem mim, escreve Eddie Vedder em uma das músicas mais bonitas do filme. E toma-lhe rumo ao Alasca.

O Alasca é triste. Então não ficarei, hoje, com essa música.

Prefiro, nesta madrugada insone, com o vento batendo lá fora e o sol ameaçando nascer, o road movie ao Alasca.

Supertramp queima seus últimos dólares, perde o carro numa enchente, desce sem autorização e sem capacete as corredeiras do cânion, não transa com uma garota linda que fica só de calcinha na sua cama e faz o velho gravador de couro subir uma montanha. “Vai ficar aí parado, esquentando o rabo?”

E nós aqui esquentando os nossos rabos, cheios de regras e explicações. A vida está pré-determinada, eles já escolheram os nossos destinos, nossas carreiras e nossos impostos, até o fim.

É só isso?

Faça um favor a si mesmo. Pense sobre a questão escutando Hard Sun, Eddie Vedder, com a janela do carro aberta, a mil por hora. O volume tocando na Lua, para sentir bem o vento rasgando no rosto e bagunçando o cabelo. Essa é a trilha do road movie.

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Roberto Salvatore