E.M.PASTORE_ Transparencia

“Sobrou pra você”, disse minha mãe.

“Por quê?”, perguntei.

“Tirou nota boa naquela redação.”

“O que tem a ver? O tema era Direito Administrativo.”

“Seu tio precisa disso até o final de semana”,  respondeu ela. E foi embora.

E, dessa maneira, fui incumbido de escrever o  prefácio de um livro sobre meu avô. Até que  gostei do convite, o qual me traria duas  descobertas pessoais. Mas disso só me daria  conta mais tarde.
Só não entendi porque sobrou pra mim.

Desconfio que foi mesmo uma ordem.

De posse da missão, não podendo perder tempo, me debrucei sobre o manuscrito.

Destrinchei os textos organizados pelo meu tio, que contam a história da família de meu avô.
E essa foi minha primeira descoberta. Ao fim de suas páginas, descobri que não sabia quem era o avô. Até então, ele era o dono da melhor biblioteca que alguém pode querer pra passar as férias da infância.

Nerudas, Garcías Marquez, Machados e Veríssimos. Todos os grandes. A Segunda Guerra e os seus personagens. A vida inteira de Einstein. Enciclopédias sem fim. Coleções de filosofia, química e física. A história do Brasil. Tudo sobre aviação.

Os livros enfileirados em grandes estantes dum aroma de madeira antiga. Espalhados pela pequena sala, artigos da época das viagens ao Pantanal. Facas, varas de pescar, um cinto de cartuchos e uma capa gaúcha de caçador.

Pois que, pela leitura do livro, de susto soube que o avô foi tantos em um só. Descobri seu pequeno mundo de realizações. A intervenção na Santa Casa, o período como professor de Química e líder do Instituto de Educação, a criação da primeira faculdade da cidade. As boas histórias do aeroclube, e sua paixão pelos ares.

Preparar aquele prefácio, para além da obrigação, foi uma missão de honra.

Para celebrar o seu aniversário de 90 anos, foi lançada a obra. Presentes a família inteira (ele teve 10 irmãos), sem contar uma boa dúzia de ilustres professores, políticos e cidadãos da cidade.

Claro, as pessoas estavam ali para homenagear o avô. Festejar aquelas memórias, que, de certa maneira, diziam respeito a toda gente que compareceu.

E, a mim, sobraram algumas surpresas. Perdi a conta de quantos vieram me agradecer pelo prefácio. Um tio, muito querido, falou “você deveria seguir carreira na escrita”.

A melhor surpresa veio do próprio avô, que já andava recluso e silencioso na cadeira de rodas pelos avanços da enfermidade. Ele leu o texto ali mesmo, equilibrando os óculos. Em seguida me estendeu a mão, sorriu e balbuciou um honesto “obrigado”.

Senti-me grato por ter escrito aquelas palavras. Elas alegraram um dos maiores homens que conheci.

Naquele dia, fiz a segunda descoberta ao escrever aquele prefácio. Descobri que, quando escrevo, me sinto mais vivo.