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Hurt, Johnny Cash.

Ele está velho e enrugado, neste clipe. Rancoroso. Eles consideram que este vídeo é o seu epitáfio. Depois de sua morte, eles deram o prêmio de melhor clipe da história.

A música não é dele. É do Nine Inch Nails. Não importa. A versão deles é meio sinistra, um acorde dissonante ao final das estrofes. A de Johnny é trágica e bela.

Seu vozeirão está lá. Mais rouco, desgastado, anunciando cordas vocais de um velho. Só deixa o tom mais nostálgico.

Um velho que se lembra da vida. Ele arrasta os dedos cansados pelo violão. A tragédia está em seus olhos.

As imagens do velho se misturam a um turbilhão de imagens de sua vida conturbada. Johnny jovem, cantando para multidões, prêmios, roubando flores num quintal, chafurdando nas drogas, fazendo filmes, tocando em presídios. Uma enchente arrastando uma casa. Imagens de Cristo na cruz.

O refrão versa sobre o que ele acabou virando. É o que ele pergunta à sua companheira de vida, June. Todos que ele conheceu se foram.

O cantor despeja o vinho de sua taça no chão, joga fora seu império de poeira. Se pudesse, começaria de novo, a mil léguas de distância.

E então o velho se cala. Tudo o que ele viveu e sentiu deixa de existir. Resta o que ele cantou ao mundo.

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Roberto Salvatore