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Às vezes, o início de um festival é melhor do que o festival em si. Ninguém sabe ao certo se os shows serão bons ou desafinados, se aparece o sol ou se um tornado vai engolir a plateia. Mas você sente que algo grande está prestes a acontecer.

Pessoas chegam por todos os lados. Turbas andando a pé, invadindo os semáforos, se misturando ao trânsito e às centenas de vendedores. Gente tentando vender cerveja, água de torneira, banana frita, ingressos e capas de chuva. As capas de chuva têm preço volátil, a depender da possibilidade da chuva, numa curva entre impossível e dilúvio celestino. Os preços da capa de chuva também acompanham a distância que você está da porta, assim como os ingressos.

Todo esse comércio começa a sujar as ruas ao redor do evento, que estará abarrotado de lixo até o final das atividades, quando bêbados dividirão o espaço com as latas jogadas ao chão.

Mas no início, tudo parece mais ou menos em ordem, e espalha-se um sentimento de celebração. Apostas sobre os melhores shows. Grupos conversam, animados. Pessoas desesperadas para entrar na fila e uns poucos queimando a largada. Em geral, moleques afoitos virando garrafas de vodka ou catuaba selvagem.

Garotas circulam, maquiadas, óculos Raiban, short ou calça apertada, raramente uma saia. Só as garotas já valem o ingresso. E é bem possível que uma delas seja seu amor antigo.

Clima de otimismo. Amigos juntos, à espera de uma ótima tarde de loucura. Em poucas horas, as luzes vão jorrar do palco. O céu, granulado, pairando acima da turba ensandecida e feliz. De alguma maneira, estar ali nos faz sentir vivos, um ponto fora do mormaço cotidiano. Uma explosão de energia sonora e psicotrópicos. Por um breve momento, nos sentimos fazendo parte da história. A vida parece valer a pena.

Pegar um festival é mais do que ver uma sucessão de bandas boas e outras ruins. É uma fraternidade de pessoas fazendo o que mais gostam, ouvir rock e estourar os tímpanos. Gritar refrãos, dar socos no céu e tocar solos imaginários de guitarra.

Algo que no dia seguinte não passa de vapor na memória. Coisa que a gente não sabe para que serve direito, mas continua indo.

“O Hemingway ia às touradas e eu vou às corridas de cavalo. Elas me ajudam a escrever”, disse o Bukowsky.

E eu vou aos festivais.

Pessoal, pra esquentar os motores, uma música de ontem. Lisztomania, Phoenix.

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Roberto Salvatore